Saturday, March 04, 2006

A promessa

Hoje de manhã, excepcionalmente e já perceberão porquê, vesti as minhas filhas, tomámos pequeno almoço e fui com elas fazer algumas compras aqui à volta de casa. Por norma vicio-me nos sítios ou nas pessoas e se conseguir harmonia nos dois, então sou efectivamente fiel. Assim acontece com uma mercearia aqui do bairro onde vivo, e que frequento com regularidade. Talvez seja uma das mais antigas de Lisboa ainda vivas e com produtos de excelente qualidade (e caros, regra geral). Evito levar as minhas filhas, porque elas inexplicavelmente desenvolveram à volta desta mercearia mística e apenas desta, uma série de maus comportamentos invariáveis e que me deixam absolutamente irritada e envergonhada. Hoje, teriam de ir comigo inevitavelmente e enquanto tomava café, expliquei-lhes pela milésima vez, o que não podiam fazer, atirando-lhes com uma série de penalizações que julgava eficazes.

Entrei na mercearia e o ritual repetiu-se. Como se eu não existisse e nunca tivéssemos abordado o assunto, a minha filha mais velha, a Sofia, de três anos dirige-se ao canto direito da loja onde estão três tinas com três qualidades de azeitonas, sempre muito boas e sem olhar para as tinas, mete a mão numa delas e tira duas azeitonas. Uma vai de imediato para boca e a outra fica na mão num invariavel acto solidário à espera que a minha filha mais nova, de costas para mim abra a boca e possa silenciosamente babar-se à vontade com a deliciosa azeitona. Assim que me apercebo, começo a ficar rubra, enquanto o dono da loja, o Sr. Henrique que já conhece a cena, sempre simpático sorri e vai invariavel e fatalmente oferecer-lhes mais uma azeitona a cada uma, com um benevolente fatal - não faz mal -. O meu olhar começa a cilindrar a minha filha mais velha, que invariavelmente diz - mamã, não volto a fazer - .


Passeiam-se mais uma vez pela mercearia. A Sofia à frente e a sua sombra chamada Leonor atrás, sempre sobre a minha possível vigilância. Aproximam-se de um saco cheio de nozes inteiras que eu já conheço e mais uma vez metem lá as mãos e mexem e mexem e mexem nas nozes. Ficam deliciadas com a sensação e com o barulho das nozes a bater umas nas outras e a cair no chão. Desatei a repreendê-las. O dono da mercearia apressa-se a dizer que não faz mal, para as deixar e mais não sei o quê. Enquanto me pedia para as deixar, rolavam nozes pelo chão e todas as pessoas que se encontravam na mercearia, empregados, clientes da mercearia e ele inclusivamente se debruçavam no chão para apanhar a meia dúzia de nozes que rebolam entre os seus pés, numa cena digna de ser fotografada, não fosse apetecer-me desaparecer dali o mais rapidamente possível. Desapontada repreendia as minhas filhas zangadíssima e proibia-as de mexer nas nozes. Elas obedeceram.

Continuaram a passear na mercearia enquanto eu pedia já a conta. Olho-as e vejo-as parar em frente a um armário cheio de chocolates, devorando-os com os olhos mas sem lhes tocar. Falam uma com a outra baixinho apontando os chocolates. O dono da loja que as observa, num acesso de excessiva simpatia pede à Sofia para escolher um chocolate. Sinto um impulso enorme para o impedir, mas não sou capaz. A Sofia avaliou a montra durante uns minutos com deleite ponderando não a qualidade do produto, mas o tamanho e a embalagem de cada chocolate e escolhe apontando com natural firmeza na decisão o maior que encontrou no espaço que cabia no seu horizonte visual. Olhando-me de soslaio alertou o Sr. Henrique - eu não tenho dinheiro e a minha mãe não me deixa comer chocolate - ao que ele ri e responde naturalmente - não faz mal, é só hoje e vens cá pagar o chocolate quando receberes o teu primeiro salário, sim? - Ela acena de imediato com um "siiiiim" de quem apenas percebe que aquela oferta lhe exige algo em troca que naquele momento não intressa rigorosamente nada. Estende a mão naquele gesto de quem, custe o que custar, não deixa escapar a oportunidade. Eu finalmente recebo a conta e abro o porta-moedas para pagar rapidamente, antes que se desencadeasse mais alguma situação embaraçosa, quando oiço a voz absolutamente infantil da minha filha numa afirmação que mais não era do que um pedido - tenho de repartir com a Leonor, pois é? - ao que O Sr. Henrique solta uma gargalhada e oferece outro chocolate igual à Leonor. Eu muda e envergonhadíssima olhava-as talvez com ar de lamento, sei lá. Os olhos da Sofia brilharam então. Veio ter comigo com uma felicidade absolutamente pura, radiante e inocente, pega-me na mão e diz-me - mamã, é só hoje, sim? não te vais zangar comigo, pois não? - Ao que eu respondi - não - e sorri. Fica a promessa por cumprir...

6 Comments:

Blogger K. said...

Maravilhoso episódio! E tão bem contado.

5:12 PM  
Blogger António Conceição said...

This comment has been removed by a blog administrator.

5:56 PM  
Blogger António Conceição said...

1- "mamã, é só hoje, sim? não te vais zangar comigo, pois não?"

Cá em casa, a frase habitual é:
- eu prometo, está bem, papá? É só hoje, eu prometo.

2- "Olhando-me de soslaio alertou o Sr. Henrique - eu não tenho dinheiro e a minha mãe não me deixa comer chocolate - ao que ele ri e responde naturalmente - não faz mal, é só hoje e vens cá pagar o chocolate quando receberes o teu primeiro salário, sim?"

Foi exactamente como o Sr. Henrique que o banco me tratou, quando eu quis comprar a minha primeira casa.

5:58 PM  
Blogger LUIS MILHANO (Lumife) said...

Em Alvito acontece...

Já somos 44...

Esperamos muitos mais


Bom fim de semana

7:22 PM  
Blogger Art&Tal said...

ora essa...
é claro que percebo o seu embaraço mas...
entendo perfeitamente o prazer das meninas.
eu adorava meter as mãos nas sacas do feijão do grão e do milho...
era muito bom mesmo
um dia na pastelaria agarrei no furador e furei o cartão dos chocolates todo. O meu avô pagou e pronto. O meu avô era um espectáculo…

ei ei ei

você não sabe o que é bom.

é claro que continuo solidário… consigo

não não

com elas

8:22 PM  
Blogger Lourenço Viana said...

Eu confesso que gosto muito de chocolates... E de nozes e dessas coisas! Muito "cosy", esta história.

1:39 AM  

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